Preconceito piora as doenças

Apesar do volume de informação disponível, pacientes ainda são estigmatizados por causa de suas enfermidades

Preconceito piora as doenças

Nas últimas décadas tem havido um grande esforço, de muitos países, para desestimular o preconceito racial, de gênero, credo e orientação sexual, incluindo o Brasil. No entanto, por falta de informação, conhecimento e, muitas vezes, atendimento médico adequado, em diferentes regiões do planeta ainda persiste o estigma que cerca inúmeras doenças, como aids, hanseníase, hepatite, tuberculose, epilepsia, vitiligo, psoríase e transtornos mentais, entre outras.

 

O termo estigma era usado na Grécia Antiga para referir-se a sinais corporais que identificavam escravos, criminosos e traidores. A palavra está relacionada à cicatriz, marca ou sinal negativo, e também traz o significado de indigno e desonroso, marcando negativamente um indivíduo ou um grupo, social e psicologicamente. O resultado deste preconceito agrava os sintomas, afasta os pacientes do tratamento, derruba a autoestima dos doentes e os leva à exclusão social.

Uma das explicações para o estigma é que suas raízes estejam vinculadas à sobrevivência do grupo em tempos precoces da evolução, pois as pessoas estigmatizadas eram aquelas percebidas como incapazes de ajudar na sobrevivência do grupo ou vistas como ameaça. O médico psiquiatra e doutor em Ciências da Saúde, Fábio Lopes Rocha, coordenador da Clínica Psiquiátrica do Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais e membro titular da Academia Mineira de Medicina, explica que, em uma perspectiva antropológica, cada ser humano organiza o mundo a partir da sua relação de individualidade, a partir da consciência de ser único e ter uma identidade específica que o distingue do outro. “Acrescendo-se a isso o fato de sermos seres precários – mortais, cosmicamente insignificantes e biologicamente frágeis –, temos o caldo psicológico de cultura para o desenvolvimento de preconceito e estigma. Reforçamos a nossa identidade frágil a partir da desvalorização e exclusão do outro.

"A exclusão dos enfermos nos conforta com a fantasia de que somos sadios”, analisa. Até mesmo as doenças agudas podem ser alvo de estigmatização, a exemplo da gripe H1N1 (Influenza A), que se espalhou pelo mundo há alguns anos e, como surgiu no México, levou os mexicanos a serem vistos pelo resto do mundo com desconfiança e reserva. Outro exemplo são as hepatites B e C que, embora tratáveis, levam os pacientes a ser discriminados até mesmo dentro de casa, embora seja necessário manter precauções para evitar o contágio. “Os familiares separam roupas e utensílios e excluem o doente, quando poderiam ser orientados corretamente pelos médicos sobre risco da transmissão, como limpar os materiais e a importância de ter um acompanhante na consulta, para que os doentes não sejam simplesmente excluídos do convívio social”, argumenta a médica Ana Paula de Oliveira Ramos, membro da Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM) e responsável pelo Ambulatório de Cuidados Paliativos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Entretanto, o indivíduo que sofre com doença crônica é mais frequentemente estigmatizado, pois pode passar a ser visto como diferente e, muitas vezes, a doença passa a ser incorporada na sua própria identidade. “Com isso, a pessoa deixa de ‘ter’ uma doença para ‘ser’ a doença. Passa a ser esquizofrênico ou epilético ou diabético, e estabelece-se a clivagem ‘nós’ versus ‘eles’. A estigmatização é mais intensa quando as doenças são consideradas como muito desviantes da normalidade ou estão associadas à quebra das normas sociais, aquelas que acarretam deformações, que são transmitidas sexualmente ou que levam a alterações do comportamento”, complementa o psiquiatra Fábio Lopes Rocha. A neuropsicóloga do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina (HU-UFSC), professora doutora Rachel Schlindwein-Zanini, docente do Programa de Mestrado em Saúde Mental e coordenadora do Núcleo de Neuropsicologia e Saúde da instituição, reforça que o estigma tem notórias repercussões na saúde pública, consistindo, por vezes, em uma barreira para o acesso à educação e à assistência médica qualificada. “O preconceito também prejudica o discriminado e a quem incita a segregação, desempenhando um papel chave na ampliação da desigualdade e na violação dos direitos humanos e inibindo a busca pelos serviços de saúde adequados, especialmente em países menos desenvolvidos”, afirma.

Neste contexto, são preocupantes as comorbidades psicológicas (cognitivas e emocionais) comumente presentes, relacionadas a transtornos do humor, isolamento social, distúrbios de aprendizagem, atenção e sono, além de sintomas físicos como obesidade, emagrecimento, fadiga e outros, que também impactam a saúde pública. O professor doutor do Núcleo de Medicina e Práticas Integrativas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisador da Escola de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Ricardo Monezi, acentua que todo processo de adoecimento consiste não apenas da instalação da doença biológica, mas de um conjunto com dimensões biológicas, psíquicas, emocionais, sensoriais e comportamentais. Por esse motivo, algumas enfermidades se refletem socialmente e, apesar de toda informação disponível e ao alcance da maioria das pessoas, ainda há uma confusão de papéis entre doença e ser humano. “O adoecimento é integral e, enquanto processo presente na sociedade, também é cercado de preconceitos e pré-conceitos, que sempre existiram, tanto que estão descritos na Bíblia”, define.

Para saber mais leia a revista "Super Saudável de julho a setembro de 2017 disponível em http://www.yakult.com.br/yakult/default.aspx?c=supersaudavel

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